sexta-feira, 5 de março de 2010

A SORTE POR UM TRIZ

A SORTE POR UM TRIZ

-Você tem que começar a me ajudar! Veja se eu não tenho razão: quase trezentos reais, só da loja de roupas! Assim não dá porra!
-E você quer que eu ande por ai que nem uma mendiga? É isso o que você quer? – Quando você me tirou da casa dos meus pais, me prometeu o mundo e o fundo, agora fica reclamando? Pois pode parar de reclamar e trate de me valorizar viu, meu nego! Eu não sou sua escrava não viu!
-Para de falar Maria, que eu já estou ficando doido! Puta que pariu! Você fala pra caralho! – Vou trabalhar, pois já não estou aguentando sua ladainha!
-Vai seu ingrato! Neste momento Maria começa a chorar. – Você um dia vai se arrepender de todas essas ofensas que me faz! – Vou ligar pra mamãe!
-É hoje! É hoje!
E assim terminava mais uma discussão entre aquele casal; discussão, aliás, que já estava virando rotina. A renda do casal se resumia no que João ganhava como policial e nos “bicos” que ele fazia para complementar a renda, pois seu salário era bem parco.
João coloca seu cinturão, checa sua pistola, olha para a mulher com cara de poucos amigos e sai para o trabalho.
“Ô vida desgraçada! – trabalho feito um escravo para sustentar esta miserável e ela ainda não reconhece... Que merda! Vou ter que passar na lotérica para pagar esta maldita fatura... ainda bem que tá perto...”
João seguia seu rumo em direção à lotérica, amarrado em pensamentos nada animadores.
Chegando ao estabelecimento, ele fez uso da sua autoridade e passou na frente de todos.
- Eu quero parcelar esta fatura em três vezes – ordenou ele à moça do caixa.
- Vai levar um bolão hoje, seu João? – aproveita o troco e leva, ofereceu a moça, sorrindo.
-Tudo bem, responde João, irritado com a demora da moça.
João pega a fatura paga e coloca no bolso; dobra o jogo do bolão e segura em uma das mãos.
Na saída da lotérica, para em uma banca de churros e compra um. Sai mordendo o meloso doce... Após tê-lo devorado, restou-lhe apenas o papel na mão. “Que droga! – não tem sequer uma lata de lixo nesta porcaria de cidade!” Fez uma bolinha com o papel e passou-a para a mesma mão onde segurava o jogo do bolão da Mega-Sena. Continuou na caminhada. Mais à frente, na calçada, avistou um monte de lixo; decidiu jogar a bolinha de papel ali mesmo. Ao dispensar a bolinha de papel, o jogo foi junto. Um senhor, que aparentava ter por volta de quarenta anos, pegou os dois papéis e em seguida gritou:
-Ei policial! – que coisa feia! – uma autoridade, que deveria dar exemplos à sociedade, joga lixo na rua, assim, em plena luz do dia! – o senhor não tem vergonha na cara não?
-Ora, mas quem é você, seu filho da puta! – com quem você pensa que está falando hein?!
-Eu sou um cidadão, cumpridor dos meus deveres e não admito que uma pessoa, que deveria zelar pela ordem pública, dê um tremendo mau exemplo, como foi esse que acabo de presenciar!
-Ah é! – você não admite!? – então toma desgraçado!
João desfere dois tiros à queima roupa naquele homem. Por coincidência, passava uma viatura naquele momento ali. Os policiais desceram do carro e se dirigiram ao João em busca de uma explicação.
-O que aconteceu companheiro? – disse um deles.
-Esse... – esse indivíduo tentou fazer uma “saidinha” aqui na lotérica... Mentiu João, tentando imprimir confiança no absurdo que acabara de dizer.
-... Ele agarrou a bolsa de uma senhora... Neste momento eu cheguei e o abordei... Foi quanto ele esboçou uma reação de pegar uma arma... Então saquei a minha e o alvejei.
- Calma amigo! – Fica calmo, que já passou!
As pessoas começaram a se aglomerar em torno do local. Alguns, inconformados, iniciaram um coro: “Assassino!” Os policiais sacaram as armas e afastaram os mais exaltados.
Um jovem, beirando uns quinze anos, fura toda aquela confusão e grita mais forte que todos:
-Meu Deus! – é o meu pai! – O que fizeram com o senhor, meu pai! O adolescente se agarrou no pai que agonizava no chão, chorando de uma forma que comoveu quase todos que ali estavam.
-Quem fez isso com o senhor! – Por quê!?
O homem, na agonia da morte iminente, balbuciou:
-Meu filho, toma... joga isso no lixo... da maneira como eu te ensinei. O rapaz pega a bolinha de papel e o jogo e, em seguida, enfia-os no bolso. Olha para o pai e grita:
-Não morra pai!
Mas não havia mais nada o que se fazer para salvar aquele pobre senhor.
– Meu pai morreu! – Quem matou meu pai? Ao terminar de proferir esta última frase, perdeu os sentidos.


Dois dias após o ocorrido, João se dirigiu para os fundos da sua casa. Lá pegou uma folha de papel e escreveu sua última redação: “Minha querida esposa, não tenho mais vontade de viver. Devido ao meu temperamento explosivo, pus fim à vida de um inocente e, por consequência, desestruturei completamente uma família. Fui um covarde e manchei a honra de um homem correto. Ele foi assassinado por mim e eu, não tendo coragem de assumir a culpa, acabei por construir uma farsa; farsa esta que não está me deixando viver mais.
Quero dizer que te amo e que sempre te amarei. Foi uma pena que não tivemos nenhum filho... Se isso me deixa triste, por outro lado me deixa mais aliviado para a decisão que tomo de por um fim à minha vida. Fica com Deus minha querida.
Como último pedido, peço-lhe que vá até o distrito policial onde foi registrada esta ocorrência e divulgue ao delegado a verdade do fato.”

Maria acorda com o estampido. Ainda zonza, sai correndo para os fundos da casa.
-Não! – O que você fez amor! – o que você fez?
Maria ajoelha-se ao lado do marido morto, chorando compulsivamente. Pega a folha de papel da mão dele e inicia a leitura do seu conteúdo.
Ao final da leitura, olha para o marido estirado no chão, segura uma das mãos dele e, com ela, faz um carinho na própria barriga. “Seu tolo! – nosso bebê está aqui!”
Naquele mesmo dia, em outro canto da cidade, dona Gresmelina, mulher do senhor assassinado, retoma a dura rotina de dona de casa, mas agora com um pouco mais de dificuldades, pois ficara viúva, com quatro filhos para criar e ainda tentava engolir aquela injustiça que fizeram com seu marido. “Meu marido não é e nunca foi ladrão não senhor!” Ainda se lembrava do apresentador de TV, sensacionalista, que passou um programa inteiro chamando seu marido de “safado”, “pilantra”, “vagabundo”, “trombadão” e tantos outros termos nada agradáveis.
A triste senhora pega o cesto de roupas sujas. Começa então um ritual que toda dona de casa realiza nessa hora: revista, peça por peça, seus bolsos, em busca de algo esquecido ali. Assim ela acha a bolinha de papel e o bilhete do bolão. Como ela não sabia ler, chamou o filho:
- José! – que papel é esse meu filho, que eu achei no bolso da sua calça?
O rapaz vem até a mãe e diz:
- Recebi este papel e uma bolinha, também de papel, da mão do pai antes dele morrer... Fez uma breve pausa e continuou. – Ele me falou “Joga no lixo filho, como eu lhe ensinei...”
– Assim que ele me entregou, deu o último suspiro e se foi.
- E foi meu filho! – Mas que miséria de papel é esse?
- Dá aqui mãe, deixa eu ver...
-É um bolão da Mega-Sena. José olha para o calendário na parede e comprova que é quinta-feira.
- Mãe, deixa eu ir à lotérica para conferir este jogo?
- Não! – De jeito nenhum! – Espera um pouco que eu vou com você! - Nem você nem seus irmãos – enquanto vida eu tiver – voltarão lá sozinhos!

Duas horas depois, mãe e filho se aproximam da lotérica. De longe um imenso cartaz chamou a atenção do rapaz. “Aqui saiu o bolão premiado do maior concurso da história da Mega-Sena: R$ 180 milhões! – 10 felizardos estão milhonários...” José cutuca a mãe e pede o bilhete:
-Vai logo mãe! – passa logo o bilhete!
Abaixo do anúncio do prêmio, em destaque, aparecia a sequência premiada: 1-2-5-10-34 e 45.
-Meu Deus mãe! – estamos ricos!

Isaías Gresmés 05/03/2010 - FIM

8 comentários:

  1. Nossa, amigo! Eu tive que fazer uma pausa na leitura! "A SORTE POR UM TRIZ" é muito dramático! Este conto nos ensina a darmos mais valor à vida, mesmo que ela não nos ofereça grandes vantagens materiais, mas a cada dia devemos agradecer a Deus por estarmos vivos, apesar das dificuldades, porque quando somos gratos a Deus pelo pouco, estamos preparando o nosso coração para algo maior, mas quando abrimos a nossa boca para reclamar, para maldizer,atraímos coisas negativas para dentro de nós e para o nosso redor.Se formos analisar à luz da Palavra de Deus, ela ensina que a mulher sábia edifica a sua casa... nesse caso, cabe a prudência em momentos de crise, não maldizendo, não reclamando, mas sendo paciente nos momentos dificeis. Uma história que poderia ter um final feliz, termina em tragédia: Um homicídio seguido de um suicídio, quatro crianças órfãs de pai, e uma criança que nunca conheceria o pai, duas mulheres viúvas, e uma série de lamentáveis consequências. E agora, onde estaria a felicidade com tanto dinheiro para gastar?

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  2. Marlene, muito obrigado pelo seu comentário. Agradeço de coração.

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  3. Nossa querido, me arrepiei...
    esta é a nossa dura rotina, stresss, vida dificil, impaciencia.

    Triste mesmo ter 2 vidas tiradas por nada...
    se é um conforto, pelo menos aquela familia que foi atingida brutalmente não vai mais passar fome...
    O policial morreu, mas deu a familia a chance de recomeçar.
    adoro seus contos amigo...
    beijos muitos

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  4. Valeu Claudinha. Obrigado pelo comentário e pelo carinho.

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  5. Oi Isaías,
    Eu consegui imaginar cada um dos personagens, criar suas vozes e olhares e apesar de tratar-se de um tema da nossa rotina, com excessão do bolão é claro..srs
    a maneira que narrou os acontecimentos, deram um up grade no texto.
    Você está de parabéns amigo.

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  6. Obrigado Cristina. Muito obrigado mesmo pelo seu comentário. Bem sei que os fatos narrados no texto, em sua maioria, não são nada edificantes, e isso ocorre porque eu escrevo aquilo que me vem na mente, sem exceção. Gostaria de escrever somente "flores",mas os espinhos insistem em me ferir! Fazer o quê né! "Mando eles pra fora!". Abraços.

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  7. Isaías, parabéns pela condução da narrativa que realmente prende a atenção do leitor. Quanto à história, não sei se consciente ou inconscientemente, você mostra mais um evento da materialização provocada pelo poder do pensamento. A família do senhor assassinado dá todas as dicas de ser um grupo humilde, ético e perseverante, o que atrai bons frutos após o sofrimento. O policial por sua vez, provoca o mesmo tipo de atração de forma inversa. O fato é que tudo pode acontecer nessa vida por meio de caminhos surpreendentes. A lição? Pensar e agir da melhor maneira possível.

    Grande abraço!

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  8. Isaías, li, atentamente, o seu belíssimo conto. História bem tramada, uma narrativa sensacional!
    Fiquei preso à leitura, do começo ao fim, e o bom é que imaginei algumas cenas que, ao final, foram coincidentes com o que vc engendrou. Muito bom, amigo, este contou que vc escreveu com desenvoltura e competência. Gostei muito de lê-lo, pois é de agradável leitura, dada à sequência dos fatos que vão se desenrolando...Parabéns, amigo Isaías, vejo que vc tem talento para esse gênero literário. Abraços.

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Eu, desde já agradeço a você, nobre amigo(a), pela presença aqui. Fique à vontade quanto ao seu comentário.