sábado, 15 de setembro de 2012

MINHA HISTÓRIA


MINHA HISTÓRIA*

Minha mãe antes de me deixar, ensinou-me muitas coisas. Ainda sinto a presença dela e sei que ela nunca me deixará sozinho.
Certo dia perguntei à minha mãe como foi que eu cheguei a este mundo. Foi assim que ela me narrou o ocorrido:
- Meu filho era já tarde da noite, seu pai dormia ao lado da sua inseparável carroça, quando os doloridos sinais da natureza, avisaram-me que era chegada a hora de eu ser mãe. Aninhei-me ali perto do seu pai e confiei a minha sorte à suprema força que tudo rege, seja ela quem for.
- E meu pai mãe? Ele não te ajudou? – a interrompi, ansioso por saber da atitude que ele tomara na ocasião.
- Ele roncava meu filho... Por certo estava sob o efeito daquela coisa que o transformava quando ele a consumia...
- Entendo. Mas, continua!
- Você não veio sozinho não! Antes de você nasceu seu irmão, mas infelizmente a vida não quis nele aflorar, pois ele veio a este mundo apenas para cumprir aquela que para a maioria é a última etapa...
Minha mãe neste momento olhava para o horizonte como a refletir e continuou na narrativa.
- Logo em seguida veio você que, ao contrário do seu irmão, gozava de saúde!
- Que legal mãe!


Foi assim que eu fiquei sabendo da minha origem.
Minha mãe, a cada dia que se passava, eu sentia que ela já não trazia em seus olhos, o vigor de antigamente... Meu pai também se deteriora muito nos últimos tempos. E a causa era aquela água estranha que ele bebia.
Eu ficava muito triste com ele, mas o amava tanto quanto amava a minha velha mãe.
 Ela sempre me dizia:
- Meu filho, nunca abandone seu pai! Lembre-se, ele nunca deixou faltar nada para a gente... É certo que ele anda adoentado devido àquela coisa que ele toma a toda hora, mas é um homem bom e também nos ama. Esteja com ele mesmo depois que eu partir.
- Para onde a senhora vai partir mãe?
- Não sei meu filho, mas sinto que a minha hora está chegando! Mas não tenho medo não!
Neste momento minha mãe me ensinou uma lição que segue gravada em meu ser até hoje. Foi assim que ela iniciou a tal lição:
“ Eu sinto que já cumpri com a minha missão neste mundo... Nasci, cresci, tive a felicidade de arrumar um pai para você e agora me sinto pronta para seguir adiante... Já vi muitos dos meus semelhantes abandonados, surrados, mortos nas esquinas e até jogados em qualquer lugar, mas nada disso me assusta, pois sei que o que estava lá abandonado, surrado ou até morto em qualquer lugar, era apenas a parte que vira pó; algo parecido com os alimentos que comemos: parte alimenta nossos corpos; outra parte é  descartada por nossos organismos e virará pó novamente. Meu corpo virará pó, mas alguma coisa que vive dentro de mim não! Essa coisa que eu não sei nomear, permanecerá te vigiando para todo o sempre meu filho”.

Após algum tempo minha mãe se foi.
Meu pai ficou muito triste, mas dentro das suas possibilidades, concedeu a ela todas as honrarias fúnebres que certamente minha velha merecia.
Naquela noite meu pai, penso eu, exagerou no consumo daquela água fedida. De madrugada, também seu coração parou de bater. Cheguei bem perto dele e lambi-lhe a face já sem vida.
Agora eu estava sozinho no mundo, mas não sentia medo, pois sabia que minha mãe me vigiava e, talvez, meu pai também.

De repente senti alguns ruídos perto dali. Eram ruídos de rivais. Também senti um cheiro que me deixou alucinado. Aquele era um chamado do qual eu não pude resistir: era um cheiro de fêmea!
Sim, eu estava pronto para o combate com meus rivais! Era chegada a hora de perpetuar a minha espécie! Lambi a face novamente do meu velho e parti para cumprir mais uma etapa do meu destino, agora confiando apenas no meu instinto.

* Cachorro, às vezes, parece gente; e gente, às vezes, parece cachorro...


ISAÍAS GRESMÉS, 15/09/2012    

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